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| O Livro dos Versos. Reprodução/Instagram |
A obra reúne 112 composições e percorre diferentes fases do percurso artístico de Kid MC. Segundo informações divulgadas sobre o projecto, cerca de 98% das letras reunidas foram retiradas da sua produção musical, começando pelo álbum de estreia lançado em 2006 e chegando a trabalhos mais recentes. O conjunto inclui material associado a projectos como “2 Por 1 & 1 Por 2”, “Caminhos”, “Breves Considerações”, “O Incorrigível”, “Sombra”, “Dois Lados da Mesma Moeda”, “Confronto de Titãs”, “Décimo Quinto Ano”, “EP-Décimo Sexto Ano”, “Scripta Manent” e “Restart”, além de singles e participações em trabalhos de outros artistas de Angola, Portugal e Brasil.
É justamente essa dimensão que torna “O Livro dos Versos” interessante enquanto publicação. Quem acompanha o rap angolano pode reconhecer determinadas fases da escrita de Kid MC, enquanto quem chega ao livro sem conhecer toda a discografia encontra uma espécie de arquivo literário construído ao longo de vinte anos. A mudança de suporte também altera a experiência: aquilo que antes era ouvido sobre um instrumental passa a ser lido, permitindo atenção diferente às palavras, às imagens e às ideias presentes nos versos.
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| Reprodução/Instagram @kidmc.oficial |
Na apresentação da obra, os 112 textos foram organizados em prosa, dando ao conteúdo uma configuração própria dentro do livro. O material não se limita a reunir títulos conhecidos. A selecção atravessa diferentes momentos da produção do rapper e mostra como determinadas preocupações foram acompanhando a sua escrita ao longo do tempo. Questões relacionadas com dignidade humana, família, fé, responsabilidade social e crescimento pessoal aparecem entre os assuntos presentes na obra.
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| Reprodução/Instagram @kidmc.oficial |
Há também uma ligação directa entre “O Livro dos Versos” e a forma como rapper Kid MC entende a palavra escrita. Em declarações sobre a publicação, o rapper explicou que a intenção não era criar apenas um arquivo das suas letras, mas apresentar um material capaz de provocar reflexão. Segundo o artista, algumas das mensagens presentes nas suas músicas tiveram impacto em ouvintes e famílias, desde questões relacionadas com relações entre pais e filhos até ao incentivo aos estudos, à rejeição do consumo de drogas e à valorização das capacidades das mulheres.
Essa perspectiva ajuda a compreender porque o livro não deve ser visto apenas como uma compilação de letras. Há uma história por trás de cada fase reunida na publicação: diferentes momentos da carreira, diferentes contextos do país e diferentes estados de espírito de um escritor que fez do rap o seu principal meio de expressão. A passagem para o papel permite observar essa produção sem a presença obrigatória do beat, do flow ou da interpretação vocal.
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| Kid MC com um exemplar de “O Livro dos Versos”. Reprodução/Instagram |
A relação entre música e literatura é, aliás, uma das cenas mais interessantes desta obra. O rap sempre teve uma relação forte com a escrita, mas “O Livro dos Versos” coloca essa escrita directamente no espaço literário. As rimas que nasceram para serem performadas passam a ocupar páginas e podem ser lidas de outra maneira. É uma mudança de ambiente, mas não necessariamente de identidade: a palavra continua a ser o centro da proposta.
O projecto começou a ser divulgado ainda em 2025, quando Kid MC anunciou que preparava uma obra para fechar as comemorações das duas décadas de carreira. Na altura, o rapper explicou que pretendia reunir aproximadamente 98% das letras produzidas ao longo da sua trajectória, desde o primeiro álbum, lançado em 2006, até trabalhos posteriores, incluindo a colaboração com o rapper Extremo Signo. A informação foi posteriormente retomada por diferentes meios de comunicação angolanos durante a preparação e o lançamento do livro.
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| Kid MC na sessão de autógrafos. Reprodução/Instagram |
Mas o percurso do livro não terminou no dia do lançamento. Em Abril de 2026, a Fundação Arte e Cultura promoveu uma edição especial do projecto “Noite de Poesia” dedicada à trajectória de Kid MC e a “O Livro dos Versos”. O próprio artista considerou a iniciativa uma espécie de extensão natural do lançamento, mostrando que a obra começou a circular também num espaço de poesia e reflexão cultural, para além do universo habitual dos concertos e projectos discográficos.
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| Kid MC durante a edição especial “Noite da Poesia”. |
Para quem está dentro da cultura Hip-Hop, a publicação representa ainda uma oportunidade de voltar às palavras com outra calma. No corre da música, muitas vezes o ouvinte acompanha o beat, o flow e a força da interpretação. No livro, a cena é diferente. O leitor pode parar num verso, voltar atrás, reler uma passagem e perceber uma ideia que talvez tivesse passado despercebida numa primeira audição.
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| Reprodução/Instagram @kidmc.oficial |
“O Livro dos Versos” acaba, assim, por funcionar em duas direcções. É um registo de uma carreira construída através da escrita, mas também uma nova forma de apresentar essa escrita a leitores que podem conhecer ou não o trabalho musical de Kid MC. As 112 composições reunidas fazem da obra um ponto de encontro entre o rap e a literatura, preservando no papel uma parte significativa de duas décadas de produção artística.
No fim das contas, o valor da publicação está precisamente nessa passagem: versos que nasceram para o microfone encontram espaço nas páginas. Para Kid MC, a caminhada iniciada no rap ganhou uma nova etapa na literatura. Para o leitor, fica a possibilidade de entrar nessa escrita por outro caminho, linha por linha, palavra por palavra, sem pressa e sem o barulho do beat a comandar o ritmo.
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| Cartaz oficial de lançamento/Divulgação |










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