Negro Bey: A palavra que desafia o silêncio no rap da Guiné Equatorial

Negro Bey — Rapper da Guiné Equatorial
A história do rap guineano tem nomes, grupos e momentos que ajudaram a construir uma identidade própria para o hip hop no país. Entre esses nomes está Negro Bey, artista que, desde os primeiros anos da sua carreira, escolheu fazer da escrita uma ferramenta para abordar a realidade social, a identidade cultural e as questões que atravessam a sociedade guineana.

O seu percurso ganhou forma com o grupo Verso Roto, numa fase em que o rap ainda procurava conquistar espaço na cena musical do país. O grupo tornou-se uma das formações importantes dessa primeira fase do hip hop guineano, combinando rap com ritmos e instrumentos tradicionais. Negro Bey participou nesse processo antes de desenvolver a carreira a solo, na qual passou a explorar com maior liberdade temas ligados à sociedade, à cultura e à política.

@negro.bey em estúdio de gravação. Foto: Martin Mendez/Reprodução Facebook

A cultura fang ocupa um lugar central nessa produção. Negro Bey utiliza o fang e o espanhol nas suas músicas e incorpora elementos da música tradicional guinéu-equatoriana, incluindo referências ao Mvet/Nvet, Mendjang e outros instrumentos e ritmos tradicionais. A intenção não é apenas utilizar essas sonoridades como acompanhamento: elas fazem parte da própria identidade musical que foi construindo ao longo da carreira.

Essa combinação aparece de forma evidente em “Reliquia”, álbum lançado em 2013. O disco tem 16 faixas e reúne rap, slam, rumba africana e ritmos folclóricos da Guiné Equatorial, com participações de artistas como Solange Belén, Ngal Madunga, Yolanda Eyama e Osisi Solo. A produção contou ainda com vários produtores ligados à cena guineana e espanhola. 

Capa do álbum “Reliquia” do rapper guineano Negro Bey
Capa do álbum “Reliquia”. Reprodução/Arquivo

É também em “Reliquia” que surge um dos singles mais importantes da sua carreira intitulado “Carta al Presidente”. A faixa coloca em primeiro plano questões como corrupção, desigualdade social, educação, condições de vida e a diferença entre as zonas mais favorecidas e os bairros pobres do país.

Numa entrevista sobre a faixa, Negro Bey explicou que procurava três coisas: unidade, paz e justiça. Também deixou claro que não pretendia apresentar-se como político. A sua posição era a de um cidadão que queria questionar aquilo que acontecia na Guiné Equatorial e pedir explicações sobre questões que afectavam a população.


A crítica de “Carta al Presidente” não se limita a uma acusação genérica contra o poder. Negro Bey aborda problemas concretos, como a falta de livros escolares, as dificuldades enfrentadas por estudantes guineanos no estrangeiro e o contraste entre áreas de grande riqueza e bairros onde as condições são muito diferentes. É justamente essa especificidade que tornou a música uma das referências para compreender a dimensão social da sua escrita.

Mesmo cantando sobretudo em espanhol, as obras de Negro Bey podem ser consideradas entre os grandes trabalhos do cenário rap lusófono. A razão está também no contexto da própria Guiné Equatorial: em 2014, o país tornou-se membro de pleno direito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), passando a integrar oficialmente este espaço. A partir desse enquadramento, a produção de Negro Bey pode ser analisada ao lado de grandes nomes do rap de intervenção social dos países de língua portuguesa. Em Moçambique, Azagaia marcou o cenário com músicas sobre corrupção, desigualdade e questões políticas; em Angola, MCK e Kid MC construíram carreiras fortemente ligadas à crítica social; em Portugal, Valete e Allen Halloween tornaram-se referências do rap de intervenção; e, no Brasil, Eduardo Taddeo e os Racionais MC’s desenvolveram obras centradas na denúncia das desigualdades e dos problemas sociais. Negro Bey segue esse mesmo percurso artístico: utiliza o rap para abordar directamente questões políticas, sociais e culturais do seu próprio país.


A ligação com o cenário do rap lusófono ganhou uma expressão ainda mais concreta em 2016, com o single intitulado “Desahogo”, colaboração de Negro Bey com Hélio Batalha. O rapper caboverdiano, considerado uma das maiores referências do cenário rap crioulo, participou do single de Negro Bey, criando uma conexão entre duas figuras de peso do rap de países de língua portuguesa. A parceria pode ser vista como uma das conexões mais significativas do rap lusófono entre a Guiné Equatorial e Cabo Verde, sobretudo porque aconteceu apenas dois anos depois da entrada da Guiné Equatorial na CPLP. “Desahogo” coloca, assim, Negro Bey e Hélio Batalha numa das grandes colaborações do rap lusófono e mostra que a língua utilizada nas músicas não impede a existência de conexões entre dois rappers de países africanos de língua portuguesa, com línguas diferentes.

Depois de “Reliquia”, Negro Bey continuou a desenvolver a sua discografia com “El Trovador”, lançado em 2019, e “Caminos”, de 2022. Este último tem 14 faixas e um interlúdio e conta com participações de artistas como Piruchi Apo, Tía Bella, Mitwa e Besoso.

Negro Bey melhor rapper dos Joncham Music Awards.
Divulgação/Joncham Music Awards.

“Caminos” também trouxe reconhecimento nos Joncham Music Awards. Negro Bey recebeu distinções como Melhor Artista Moderno, em 2016, Melhor Rapper, em 2019, e Melhor Álbum, em 2020, por “El Trovador”. Em 2023, recebeu novamente dois prémios Joncham relativos a 2022: Melhor Rapper e Melhor Álbum por “Caminos”.

Fora dos álbuns, Negro Bey também procurou documentar a história da própria cultura urbana do país. Em 2018, publicou “Cultura Urbana de Guinea Equatorial”, obra dedicada ao desenvolvimento do hip hop e da cultura urbana guineano. O projecto ampliou para o campo editorial uma preocupação que já estava presente na sua música: preservar a memória de uma cena construída por diferentes grupos e artistas.

Livro “Cultura Urbana de Guinea Equatorial”. Reprodução/Facebook @negro.bey

O trabalho com jovens é outra parte importante da sua actividade. Durante vários anos, Negro Bey participou em campanhas de sensibilização em escolas, abordando questões como a perda da identidade cultural, a toxicodependência e a delinquência juvenil. A iniciativa colocou a sua experiência no hip hop em contacto directo com estudantes e com problemas que afectam a juventude guineana.

A dimensão política da sua obra continuou presente nos lançamentos seguintes. Em 2024, Negro Bey apresentou “Así Nacen Las Dictaduras”, projecto relacionado com o livro “Cómo Nacen Las Dictaduras dentro de Nuestras Democracias”, de G.M. Abeso Evuy Oyana. A música aborda temas como golpes de Estado, poder político e ditadura.

Negro Bey rapper da Guiné Equatorial
Foto: Soul Silver/Reprodução Facebook @negro.bey

No mesmo período, Negro Bey voltou a falar publicamente sobre o papel do rap na Guiné Equatorial. Numa entrevista, durante a sua passagem por Macau para a Semana Cultural da China e dos Países de Língua Portuguesa, afirmou que a música funciona como um bastião da liberdade de expressão no país. Também reconheceu as dificuldades de produzir música crítica num contexto em que as consequências de determinadas posições podem ser sérias.

A sua produção mais recente inclui o EP intitulado “Lo Que Quiero”, lançado em Agosto de 2025, com quatro faixas. A discografia disponível inclui ainda “Así Nacen Las Dictaduras”, “Messias”, “Aluk”, “Ndeme Ah Bere” e outros singles lançados entre 2020 e 2025. 

Negro Bey rapper da Guiné Equatorial
Reprodução/Instagram @negrobeyfansglobal

Ao longo de mais de uma década de produção discográfica, Negro Bey manteve uma linha artística reconhecível: rap ligado à realidade da Guiné Equatorial, referências à cultura fang, crítica social e interesse pela história do próprio movimento hip hop. É essa combinação que explica a posição que ocupa no cenário musical guineano e também o interesse que a sua obra passou a despertar fora do país.

A sua importância para o rap da Guiné Equatorial está, portanto, tanto nos singles como na forma como ajudou a registar e a desenvolver a cultura hip hop do país. De Verso Roto a “Reliquia”, de “Carta al Presidente” a “Caminos” e “Lo Que Quiero”, Negro Bey construiu uma discografia em que a realidade guineana permanece no centro. Ao mesmo tempo, os seus singles estabelecem ligações com outros espaços do rap lusófono.

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